A RELIGIÃO E A MAGIA NO EGITO ANTIGO

O ANTIGO EGITO

Para Heródoto, historiador grego, o Egito era uma “dádiva do Nilo”. O Nilo foi o berço de uma das mais brilhantes civilizações do Oriente Antigo: a egípcia. Sob o governo teocrático dos faraós, o antigo Egito construiu sistemas de canais de irrigação, edificou templos e pirâmides, mumificou os mortos, desenvolveu a escrita hieroglífica e realizou a primeira reforma religiosa da história da humanidade.

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A localização geográfica do antigo Egito, seu povoamento por tribos nômades e a divisão de sua história.

O mapa mostra a localização do Egito antigo: ele se situava ao nordeste da África, entra a primeira catarata e o delta do Nilo. Os limites de seu território eram: o Mediterrâneo, ao norte; a Núbia, ao sul; o deserto do Saara, ao oeste; e o istmo de Suez e o mar Vermelho, a leste. No período Neolítico, cerca de 4000 a. C., tribos nômades-pastoris vindas do deserto do Saara e da península da Arábia chegaram ao vale do Nilo. As inundações anuais e a fertilidade do solo levaram essas tribos a sedentarização, ao desenvolvimento da agricultura e das técnicas de irrigação. Data dessa época o início da história do Antigo Egito.

A RELIGIÃO EGÍPCIA: O CARÁTER SOLAR DA RELIGIÃO E OS PRINCIPAIS DEUSES DO POLITEÍSMO EGÍPCIO.

A religião desempenhou um papel ideológico na civilização egípcia. O culto religioso exaltou inicialmente as forças cósmicas e naturais, como o Sol e Nilo, essenciais à vida do Egito Antigo.

De acordo com essa sociedade, os deuses possuíam poderes específicos e atuavam na vida das pessoas. Entre os principais deuses egípcios, podem ser destacados Hórus, Rá (deus sol), Isís (deusa da fertilidade), Anúbis (deus dos mortos), Maat (deusa da justiça) e Bastet (deusa dos gatos e da fertilidade). Cada deus exercia uma função diferente, bem como possuía sacerdotes específicos responsáveis por sua adoração.

Os egípcios antigos faziam rituais e oferendas para que os deuses ajudassem em suas vidas. Nesse aspecto duas características muito importantes da religiosidade dos egípcios eram os conceitos maat e heka. O primeiro conceito definia a importância de viver uma vida correta, de forma a manter a existência harmônica no universo. O conceito de Heka estava relacionado à mágica e afirmava a importância dela tanto na criação do universo quanto na manifestação do poder dos deuses.

Os egípcios tinham um livro sagrado: o Livro dos Mortos. Nele existem instruções para vida depois da morte, ou seja, seu conteúdo é um passo-a-passo das ações que o homem deveria ter para eliminar as etapas e conseguir ter um bom julgamento, com o propósito de ir para o paraíso.

De certa forma a religião no Antigo Egito era elitista, excluía muitas vezes o povo, pelo fato dos sacerdotes pertencerem a nobreza e o faraó ser encarado como um deus encarnado. Mas por outro lado, a religião egípcia refletia os valores e o cotidiano do povo.

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Secção do Livro dos Mortos no Papiro de Ani c. 1040 a.C.–945 a.C.
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Estela com a imagem de Akhenaton, sua esposa, a famosa rainha Nefertiti e os filhos do casal adorando Aton (o deus sol) –  Museu Egípcio do Cairo

A partir daí a revolução da religião passou por três fases principais: o zoomorfismo, o antropomorfismo e o antropozoomorfismo.

No zoomorfismo, os deuses assumiram a forma animal, como o boi Ápis, onde cultuavam animais através de algumas atitudes que os faziam acreditar que os próprios eram a encarnação dos deuses na terra. Por exemplo, se uma determinada cidade fosse invadida por ratos o que resolveria o problema seriam os gatos e sendo assim se os gatos acabassem com os ratos seriam adorados e cultuados como uma encarnação dos deuses por acabar com a praga que estava afligindo a cidade. Outro exemplo, o cachorro poderia muito bem me auxiliar na caça, dessa maneira ele seria cultuado, pois estavam ajudando. O gado poderia auxiliar na agricultura, dessa maneira também não deixaria de ser cultuado. Seguindo esse raciocínio de que os animais estivessem sempre ajudando os humanos no dia-a-dia é que os faziam acreditar que os animais eram seres vivos divinos. No antropomorfismo, evoluíram para forma humana, como Osíris e Ísis; no antropozoomorfismo, eram representados com corpo humano e cabeça animal, como Anúbis deus da mumificação.

 

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Bronze figure of Apis, the sacred bull
From Lower Egypt
Late Period, about 600 BC
Length: 16 cm
Width: 6.13 cm
Height: 20.5 cm
Department of Ancient Egypt and Sudan (study collection)
Item: EA 37448
Location: British Museum, London
(zoomorfismo)
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Estatueta da deusa Ísis.
Dinastia Ptolomaica (304 a 30 a.C.)
Madeira de tamaris dourada, incrustada de bronze e vidro.
Exposta no Museu do Louvre.
(antropomorfismo)
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Deus Anúbis
Museu do Cairo
(antropozoomorfismo)

A religião passou também por vários estágios: dos deuses locais ou totêmicos até a fusão dos mesmos em divindades nacionais. A evolução religiosa acompanhou provavelmente a evolução política, que se estendeu do particularismo dos nomos //poderia ter colocado uma nota de rodapé explicando o que era ao poder centralizado do império. O processo evolutivo ocorreu também do politeísmo nacional até o monoteísmo universalista da fracassada reforma religiosa de Ikhnáton. A tendência dominante em toda história do Egito foi o desenvolvimento de uma religião solar. No antigo Império, Rá (o Sol, deus de Heliópolis) impôs-se como divindade nacional. No médio Império, a supremacia política de Tebas sobre o Egito levou a fusão do deus tebano Ámon com Rá de Heliópolis, da qual resultou uma síntese no culto de Ámon-Rá. O culto de Osíris e Ísis (deuses agrários e da fertilidade) foi o mais popular no Egito Antigo. Osíris, com sua irmã-esposa, povoaram o Egito e ensinaram aos félas //(poderia ter colocado uma nota de rodapé explicando quem eram) as técnicas da agricultura. Conta a lenda que o deus Set apaixonou-se por Ísis e por isso assassinou Osíris. Este ressuscitou depois e dirigiu-se para o Além, tornando-se o deus dos mortos. Os antigos egípcios acreditavam que as lagrimas de Ísis, que chorava a morte do esposo, eram responsáveis pelas cheias periódicas do Nilo.

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Representação de Rá, baseada em pinturas de tumbas construídas durante o Império Novo (1550-1070 a.C).

A CRENÇA NA VIDA APÓS A MORTE E A MUMIFICAÇÃO

Outra característica importante da religião egípcia era a crença na vida após a morte. Os egípcios acreditavam que a vida terrena era apenas uma etapa de uma jornada que continuaria e que, por isso, seria necessário levá-la da maneira mais justa possível. Os atos realizados em vida, inclusive, eram extremamente importantes, pois definiriam o destino de cada pessoa.

De acordo com esta crença, o morto era julgado no Tribunal de Osíris, a crença egípcia afirmava que o coração seria pesado em uma balança com uma pena, e o resultado definiria o acesso ao paraíso.

Esse era um ato simbólico, uma vez que o coração representava as ações em vida de cada pessoa, e a pena representava a justiça e era o símbolo da deusa Maat. Caso o coração fosse mais leve que a pena, a pessoa teria acesso ao paraíso. Caso contrário, a alma dessa pessoa seria devorada por uma entidade monstruosa.

A crença na vida após a morte também explicava a preocupação dos egípcios com a conservação dos corpos, uma vez que a continuidade da vida estava condicionada a sua preservação na terra. Desse ponto de vista, era necessário que os corpos fossem cuidados, por isso os egípcios mumificavam seus mortos.

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Cerimônia fúnebre de “abrir a boca” do faraó mumificado

RELIGIÃO E MAGIA

Hermópolis, a antiga cidade santa do deus Thot, patrono dos magos egípcios, o Hermes dos gregos, não passa hoje de uma cidade em ruínas. No entanto, aqui e além subsistem vestígios da grandeza passada. Uma das mais impressionantes é o túmulo de Petosíris, sumo sacerdote de Thot, iniciado nos mistérios. Esse túmulo não é consagrado à morte, mas sim à vida na eternidade. Seus textos admiráveis foram redigidos para ajudar o homem a realizar-se, a encontrar a verdade profunda do seu ser, sem a qual nenhuma felicidade poderá ser vivida na Terra. Numa das paredes do túmulo de Petosíris leem-se estas frases:

“Aquele que se coloca na via do deus passa toda a sua vida na alegria, cumulado de riquezas, mais do que seus pares. Envelhece na sua cidade, é um homem venerado na sua província, seus membros mantêm-se jovens como os de uma criança. Os filhos estão diante dele, numerosos e considerados os primeiros da cidade; esses filhos sucedem-se de geração em geração… Chega, enfim, à necrópole em alegria, no belo embalsamamento do trabalho de Anúbis.” Inscrição nº 61 do túmulo de Petosíris.

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As ruínas de Hermópolis – Egito
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Túmulo de Petosíris em Tuna el-Guebel, datado do século IV a. C.

Para atingir a sabedoria evocada pelo grande sacerdote Petosíris, não basta a boa vontade. Torna-se indispensável uma certa ciência a que os egípcios chamavam “magia”. Essa noção-chave, hoje confundida com magia negra, feitiçaria, poderes psíquicos e outros fenômenos de certa forma inquietantes, tinha, na época dos faraós, um significado preciso.

Por causa da mania de escrever em paredes, muita informação foi perdida com o passar do tempo, principalmente aquelas inscritas em palácios e habitações que eram construídos com tijolos de terra crua, vindo do lodo do Nilo. Pondera-se que tipo de informações poderia ter chegado até nós caso tivessem sido salvas.

A grande parte do que sabemos vem das inscrições feitas em templos e túmulos, destinados aos deuses e aos mortos, não para amadores de arte. O povo só tinha acesso mesmo às estátuas gigantes eram colocadas diante dos templos e às esculturas que ornamentavam as faces exteriores dos pilões, que serviam também como uma espécie de propaganda política.

Sabemos, pela análise dos exemplares retirados dos túmulos, que as estátuas e as pinturas desses locais tinham um objetivo primordial, que era o de garantir a vida eterna para a alma (ou Ka, mais especificamente), que podia pular para fora de seu corpo mumificado quando quisesse e passar para a estátua ou para a pintura do mural. Qualquer um desses casos podia servir de abrigo para a alma caso o corpo fosse destruído, na maioria das vezes pelos ladrões de túmulos, que despedaçavam as múmias em busca dos amuletos e pedras preciosas que eram colocados entre suas bandagens. Toda aquela decoração podia inclusive fornecer receptáculos para o falecido animar, sempre por meio de fórmulas mágicas. Assim pode- se concluir que todos esses objetos eram necessários para garantir a ressurreição. Não era necessário haver uma representação realista do morto, bastando a presença de um retrato idealizado, ou seja, (sem muitos detalhes, o que deve causar fúria na maioria dos artistas modernos). Por meio da combinação magia e arte, claro, aspectos da vida anterior do morto como velhice e doença nunca apareceriam, além de conservar a maturidade masculina.

O nome do morto sempre era mencionado na estátua ou acima do seu retrato ou em qualquer posição que aparecesse. Era um elemento de identificação e personalidade que servia para garantir a tanto a individualidade do morto quanto a sua capacidade de realizar essas tarefas mágicas de transformação. Um exemplo de como essa interação acontecia era que, enquanto os artistas trabalhavam, os artesãos recitavam fórmulas mágicas que eram transmitidas de pai para filho juntamente com as técnicas do ofício. Para os egípcios, a magia vivia nas peças de arte e eram sujeitas a lei. Dessa maneira, o faraó sempre estará massacrando seus inimigos e os escribas acocorados pode, a qualquer momento, levantar-se e voltar para o convívio da luz do dia, atingindo assim a tão almejada imortalidade.

A IDEIA DE MAGIA E OS RESPONSÁVEIS POR ELA.

Na época dos faraós, aqueles que se ocupavam dos animais venenosos eram mágicos que tinham recebido uma iniciação, tinham conhecimentos, utilizavam fórmulas específicas cuja manipulação requeria qualificações excepcionais. Significa dizer que ao contrário da ideia contemporânea, em que a magia é comumente associada a feitiçaria, no Egito antigo essa concepção carrega um significado preciso: O Conhecimento. Para atingir a sabedoria evocada ao grande deus Toth, era necessário uma certa ciência, a que os egípcios se referiam como magia, ou seja, era mágico aquela que era conhecedor do cosmos , do mundo terreno  e da interseção entre essas duas esferas (Esses conceitos que norteiam o pensamento egípcio).

O mágico não é um necromante nem um ocultista. Para o Egito, ele é um sábio e um sacerdote. Lê e escreve hieróglifos, conhece os livros antigos e as fórmulas de poder. É mágico porque é conhecedor. A sua função oficial é concretizada pelo porte de um rolo de papiro, símbolo da abstração e do conhecimento esotérico.

O FARAÓ COMO MAGO

Segundo Maneton, o sacerdote de Sebennitos que, na época grega, consagrou uma obra célebre à história dos reis do Egito, o faraó Athotis (primeira dinastia) era um médico que redigia livros de anatomia. Praticou, portanto, uma arte mágica, abrindo o caminho para os seus sucessores. Nessa perspectiva, considera-se que todos os faraós foram magos institucionais. No Império Antigo, Imhotep foi o mais célebre dos magos. A sua fama era tal que, séculos mais tarde, os gregos o identificaram com o seu deus da medicina, Asclépio. No Império Novo, os escribas prestavam culto ao “deus” Imhotep; antes de escrever, deitavam na terra um pouco de água em memória de seu ilustre patrono. A personalidade de Imhotep é, portanto, essencial para se perceber a extensão do “campo mágico” no Antigo Egito. Esse personagem não era um pequeno feiticeiro de aldeia, mas sim o primeiro-ministro do todo-poderoso faraó Djoser e o inventor da arquitetura de pedra cuja primeira obra-prima foi a pirâmide de degraus de Saqqara.

Hardedef, um dos filhos de Khéops, era conhecido pelo seu extenso conhecimento e as suas sábias palavras. Descobriu diversos livros antigos de magia, cujas fórmulas foram integradas nos escritos rituais. Khaemuase, quarto filho de outro faraó célebre, Ramsés II, era sumo sacerdote de Ptah em Mênfis. Construiu e restaurou numerosos monumentos. Tinha uma paixão pela arqueologia e pelo estudo dos documentos antigos. Passava por grande sábio e inspirou duas histórias de magia. Hórus, filho de Panechi, era um mago que viveu na Época Baixa. Teve de combater um mago etíope que ameaçava a segurança do Estado. Este Hórus vivera quinze séculos antes e havia reencarnado para vir em socorro do seu país.

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Estatueta de Imhotep no Louvre
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O faraó, protegido por Ísis, avança para Osíris. A deusa ostenta no penteado o signo hieroglífico do trono que define a sua natureza simbólica. Ela é a deusa-trono de onde nascem os reis. Com a mão direita emite um fluido que atinge a nuca do faraó, um dos centros vitais da sua Pessoa. Com a mão esquerda segura o braço direito do monarca: ato mágico necessário, porque o faraó aperta no punho os dois cetros que lhe permitem exercer a soberania sobre a terra dos homens. O rei veste-se segundo a sua função: coroa dupla (juntando em uma só a coroa branca do Alto Egito e a coroa vermelha do Baixo Egito), a peruca nemes e o grande saiote cerimonial. Diante de Osíris é deposto um pequeno altar no qual se encontram flores e um queimador de perfume. O rei oferece ao deus da ressurreição a essência sutil de todas as coisas. (As capelas de Tutankhamon).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Até os dias atuais o Egito é lembrado pelas questões de magia e ritualidade, os egípcios usavam a magia em todas as fases da vida, onde eles utilizavam utensílios mágicos como amuletos, ouro e pedras preciosas; tinham o domínio dos elementos; os magos eram ligados aos deuses e a magia era intrinsecamente ligada a medicina.

Para os antigos egípcios a magia é conhecer o poder, saber fala-lhe, saber ouvi-lo, deslizar para o interior das múltiplas formas que ele assume na terra dos homens.

A magia constrói o homem.

BIBLIOGRAFIA:

AUGUSTO, Pedro. Religião e deuses do Egito Antigo. Disponível em: <www.infoescola.com/historia/religiao-e-deuses-do-egito-antigo/>. Acesso em: 27 maio 2018.

COUTO, S. P. Desvendando o Egito: Tutancâmon, as esfinges e outros mistérios da terra dos faraós. São Paulo: Universo dos Livros, 2008

FLETCHER, Joann. The Road to the Pyramids. Disponível em: <https://www.bbc.co.uk/programmes/b06vpc9y&gt;. Acesso em: 27 maio 2018

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JACQ, C. O Mundo Mágico do Antigo Egito. 2. Ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001

MELLO, L. I. A; COSTA, L. C. A. História antiga e medieval: da comunidade primitiva ao estado moderno. 3. Ed. São Paulo: Editora Scipione, 1995

MALEK, Jaromir. Egyptian Art. Phaidon, 1999

PINCH, Geraldine. Magia Egípcia Antiga. Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/history/ancient/egyptians/magic_01.shtml&gt;. Acesso em: 27 maio 2018

Alunas: Paola Matheus e Ludmylla Lopes

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